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Nada que é digital nos é estranho

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O blog é uma extensão da cobertura sobre tecnologia e internet publicada na Folha.

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Millôr e a tecnologia

Por Emerson Kimura

“Ninguém ignora que a internet é 90% lixo. Mas os outros 10% são excelentes. Do lixo nos chegam 100%. Do excelente nos chega 1%.”

Millôr (1924-2012) era, segundo ele mesmo, um “grande admirador da tecnologia”. Comprou seu primeiro computador, “um XT a vapor” (“considerado por muitos uma extraordinária peça de ficção científica”), em 1986 e lançou seu site (ou “saite”, como costumava grafar) em 2000.

No Millôr Online é possível constatar esse interesse do autor, que abordou o tema diversas vezes. Veja, abaixo, alguns exemplos.

Todos sabem – os poucos que sabem – que sou grande admirador da tecnologia. Mas o progresso é sempre melhor? Sempre? Todo dia a gente vê desastres. Terríveis acidentes aéreos, engavetamento de trens, batida coletiva de automóveis. Você alguma vez ouviu falar de algum acidente com os maravilhosos meios de transporte do passado – soube da queda de algum tapete voador, de alguma batida de vassouras de bruxas, de algum enguiço de botas de sete léguas? (link)

Bilhete comum em computês, ou internetês, pro extraordinário linguista Aldo Rebelo meditar na cama: “Amo VC, por sua blz, mas kd você? Vamos nos ver neste fds, pessoalmente e tb pela net, tah? Sente fmz? Que é que vc flw? Tdo em cima? Quando vamos att nossos bjs? Add alguns abs? Ou você está com alg novo? Xau. O Môr.” (link)

A imprensa, como demonstra extraordinariamente no momento atual, é, mais que nunca, o Quarto Poder. E, neste primeiro escândalo internacional, ocorrendo no imenso Brasil, a internet, com sua repercussão-relâmpago e capacidade de invadir e influenciar todos os setores, já é o Quinto Poder. Estamos, sempre estivemos, a reboque da tecnologia. (link)

Millôr indignava-se ao ver textos apócrifos com a sua assinatura circulando pela internet, conta reportagem de meu amigo Rafael Capanema para a Folha. “Mas é isso que pensam de mim?!” “Quer dizer que acham que eu escreveria uma babaquice dessas?!”

Notório tradutor, ele resolveu, certa vez, desafiar seu concorrente do Google:

Impulsionado pelo medo de perder um emprego ainda exequível, resolvi entrar no campo do invasor eletrônico, usando suas próprias armas. Peguei a frase que Machado de Assis escreveu há mais de 130 anos e que acabaram colocando na entrada da ABI, traduzi de uma língua pra outra e de outra pra uma, desde o português inicial até o português final. Me acompanhem.

Vale a pena ver o resultado final, aqui.

Aparentemente, Millôr era fã da linha de laptops ThinkPad – ao menos na época em que a marca era da IBM, que chegou a convidá-lo para um encontro em Fort Lauderdale, na Flórida, como conta Luis Nassif, que também foi lá:

A empresa criou um conselho latino-americano de usuários do Thinkpad. Faziam parte Millôr, Cora, Mário Henrique Simonsen e eu. Nossa única missão era viajar uma vez por ano para lá, ser apresentado às maravilhas tecnológicas da IBM e ajudar a identificar a melhor relação custo-benefício das máquinas.

Ele era ainda um grande crítico da televisão.

Primeiro a religião prometeu o céu longínquo, sem jamais dizer onde ou quando. Depois apareceu o comunismo e pregou uma solução também bem distante; quando tudo fosse mais, e mais bem produzido, e seria mais bem repartido. Mas só mesmo quando surgiu a televisão e criou a sociedade de consumo, garantindo a felicidade colorida e fácil aqui mesmo na loja da esquina, foi que o pessoal entendeu. E começaram os assaltos e seqüestros, com a distribuição social imediata. (link)

Maravilha sem par
À televisão
Só falta não falar.

Apesar da admiração pela tecnologia, Millôr não usava telefone celular – pelo menos até 2007, quando foi publicada uma entrevista no “Zero Hora” com este trecho:

O fluxo de idéias de Millôr não cessa. A Revolução Russa. A Revolução Francesa. Napoleão Bonaparte. O telefone celular.
– O telefone celular! Eis uma revolução inescapável. O serviço que o telefone celular presta ao proletariado é imenso. E foi algo feito para o grã-fino. Mas, hoje, todos têm celular. O sujeito é um encanador, ele atende o celular na rua, ele liga e pergunta se pode passar na sua casa em meia hora. O telefone celular facilita a vida de todo mundo.

Sendo assim, quantos telefones celulares terá Millôr Fernandes?
– Nenhum. Não preciso de telefone celular.
Não se trata de aversão à tecnologia. Já em 1986, Millôr comprou um computador, para espanto dos amigos.
– Eles me perguntavam: “Para que você quer isso?” Ora, o computador, já naquela época, em que não existia Internet, era muito melhor do que a máquina de escrever!

Agora, Millôr tem o seu próprio site, lê todos os e-mails que recebe, responde os que pode, opera programas que o ajudam no trabalho.
– Mas não me venham com essa história de upgrade. O upgrade não me pega mais.

Internet, TV a cabo, telefone celular. Millôr sabe quem inventou tudo isso.
– Foram os vigaristas. O mundo é feito pelos vigaristas. As catedrais, as pirâmides, o Taj Mahal, quem fez tudo isso? Os déspotas. Os safados. Depois, claro, essas coisas são aproveitadas pelo proletariado. Como o telefone celular. Mas a gente não pode se iludir. Olha: não conheço ninguém cem por cento puro, mas conheço canalhas irretocáveis. Lógico que existem pessoas boas. Lógico que algumas pessoas são melhores do que as outras, mas não se pode fugir da natureza humana.

Leia mais sobre Millôr no especial da Folha.com.

Texto atualizado em 29 de março de 2012, com as informações sobre textos apócrifos e ThinkPad.

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